MÉTODOS ALTERNATIVOS PARA O CONTROLE in vitro DE Colletotrichum gloeosporioides AGENTE CAUSAL DA ANTRACNOSE EM PIMENTA DEDO-DEMOÇA

RESUMO

 

A utilização de diferentes métodos visando o controle de doenças fitopatológicas proporciona uma redução da utilização de produtos químicos. A doença antracnose causa vários danos à produção de diversas plantas, incluindo a pimenta dedo-demoça (Capsicum baccatum) e pode acometer os frutos por completo, inviabilizando seu comércio e causando grandes perdas na produção. A sociedade cada vez mais vem exigindo alimentos com qualidade e sem agrotóxicos, pois o mesmo causa vários danos à saúde. Diante disso, a utilização de meios alternativos pode ser uma opção viável para pequenos, médios e grandes produtores. Logo, objetivou-se com este trabalho analisar métodos alternativos para o controle do fungo Colletotrichum gloeosporioides agente causal da doença antracnose através da aplicação de diferentes dosagens de óleo de neem, óleo essencial de cravo-da-índia e extrato aquoso de pimenta malagueta in vitro. O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado (DIC) com 16 tratamentos e 10 repetições em diferentes concentrações, totalizando 160 placas de Petri. As medições do crescimento micelial do patógeno foram realizadas com o auxílio de um paquímetro digital em dias alternados, totalizando 6 dias de observação. Os resultados obtidos revelaram que a utilização do óleo de neem e do óleo essencial de cravo-da-índia na dosagem mínima (diluição 10-5 ) promoveu redução do crescimento micelial do patógeno C. gloeosporioides, obtendo destaque o óleo de nem que foi mais eficiente que o óleo de essencial de cravo-da-índia. O extrato aquoso de pimenta malagueta não apresentou bons resultados na inibição do crescimento micelial do patógeno quando comparado com o controle.

 

1. Introdução

 

A pimenta dedo-de-moça (Capsicum baccatum) é uma hortaliça pertencente à família Solanaceae, sendo cultivada em todas as regiões do Brasil. Seu cultivo tem grande importância, pois gera vínculos empregatícios além de contribuir para a obtenção de renda de pequenos produtores. Esta cultivar possui um amplo mercado, podendo ser utilizada de várias formas, como o consumo in natura do fruto, utilização como temperos e conservas (Furtado, Dutra & Deliza, 2006). As pimentas do gênero Capsicum estão inclusas na riqueza cultural brasileira. Seu cultivo abrange regiões desde o Rio Grande do Sul até Roraima, com uma rica variação de sabores, cores e pungência. No Brasil cultivam-se pimentas deste gênero em praticamente todos os estados, sendo os principais: Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Ceará e Rio Grande do Sul. A produtividade em média da pimenta no Brasil varia de 10 t/ha a 30 t/ha (Ribeiro, et al., 2008). O cultivo de pimenta dedo-de-moça é um dos mais importantes para a obtenção de renda de pequenos produtores. Segundo dados de Carvalho et al. (2009), os agricultores do município 

de Turuçu/RS cultivam pimenta dedo-de-moça há mais de 50 anos, utilizando sementes obtidas a partir de suas próprias plantações. O sistema de produção empregado neste cultivo é de baixo nível tecnológico, tendo isso em vista os produtores enfrentam bastante problemas com relação a doenças causadas nas lavouras, em especial a antracnose. Os danos causados pela mesma ocasionaram uma redução no número de produtores e na área cultivada de pimenta. A antracnose é uma doença fitopatológica causada por fungos pertencentes ao gênero Colletotrichum que ataca diretamente os frutos e sua ocorrência pode ocasionar várias perdas nas produções em grande escala. Devido sua importância econômica e relevância científica, este gênero foi incluído na lista dos dez fungos fitopatogênicos mais importantes do mundo. Até o momento foram reconhecidas 218 espécies de Colletotrichum sendo estas subdivididas em 12 complexos de espécie e outras são consideradas espécies individuais. Estas espécies infectam mais de 30 gêneros de plantas, causando a doença antracnose e também doenças de pós-colheita (Carboni, 2018). A espécie C. gloeosporioides é a mais comum no Brasil. Os sintomas iniciais da antracnose em plantas e frutos possui um formato circular, e com o passar do tempo adquire uma coloração castanha escura podendo essa lesão aumentar de tamanho. No verão é mais frequente a ocorrência dessa doença devido ao aumento da umidade. A disseminação desse patógeno ocorre através de respingos de água, podendo então ser disseminado na ocorrência de chuvas e até mesmo durante a irrigação (Reis, et al., 2011). A utilização de métodos alternativos para o controle de fungos tem sido uma boa solução, visto que os produtos químicos são mais utilizados e estes geram grandes consequências ao meio ambiente. Dentre os métodos alternativos podemos citar os óleos essenciais (cravo-daíndia, óleo de citrus, óleo de neem) extratos de plantas como o extrato de mamona entre outros. Esses métodos visam um alto controle de patógenos sem a agressão ao meio ambiente e à saúde humana (Morello & Collet, 2013). Com o passar dos anos a sociedade está cada vez mais exigente no que se refere a uma alimentação saudável e sem agrotóxicos, pois o mesmo causa vários problemas ao ambiente e a saúde humana, devido conter vários compostos químicos. Logo objetivou-se com este trabalho analisar métodos alternativos visando o controle in vitro de C. gloeosporioides causador da antracnose em pimenta dedo-de-moça através da aplicação de diferentes dosagens de óleo de neem, óleo essencial de cravo-da-índia e extrato aquoso de pimenta malagueta.

 

2. Metodologia

 

O trabalho foi realizado no Laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano - Campus Ceres. Utilizou-se o fungo C. gloeosporioides proveniente da Universidade Federal de Goiás – UFG para avaliação in vitro no ano de 2018. O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado (DIC) com 16 tratamentos e 10 repetições (cada repetição foi composta por uma placa de Petri), sendo: T1: Controle (água destilada); T2: Óleo de neem na diluição 10-1 ; T3: Óleo de neem na diluição 10-2 ; T4: Óleo de neem na diluição 10-3 ; T5: Óleo de neem na diluição 10-4 ; T6: Óleo de neem na diluição 10-5 ; T7: Óleo essencial de cravo-daíndia na diluição10-1 ; T8: Óleo essencial de cravo-da-índia na diluição10-2 ; T9: Óleo essencial de cravo-da-índia na diluição10-3 ; T10: Óleo essencial de cravo-da-índia na diluição 10-4 ; T11: Óleo essencial de cravo-da-índia na diluição 10-5 ; T12: Extrato aquoso de pimenta malagueta na diluição 10-1 ; T13: Extrato aquoso de pimenta malagueta na diluição 10-2 ; T14: Extrato aquoso de pimenta malagueta na diluição 10-3 ; T15: Extrato aquoso de pimenta malagueta na diluição 10-4 ; T16: Extrato aquoso de pimenta malagueta na diluição 10-5 . O meio de cultura utilizado foi o Batata, Dextrose, Ágar (BDA) da marca KASVI. O preparo do meio de cultura foi realizado adicionando-se 45g do meio de cultura (em pó) em 1L de água destilada; o mesmo foi colocado em uma autoclave para a esterilização. Em seguida foi realizado as diluições dos extratos em solução salina, preparada e colocada em tubos de ensaio. Adicionou-se 5 ml de cada diluição em béqueres contendo 95 ml de meio BDA. Posteriormente foi vertido 10 ml de meio em cada placa de Petri medindo 9 cm de diâmetro, totalizando 1,600 litros de meio utilizado no experimento. A repicagem do fungo foi realizada no interior de uma Câmara de Fluxo Laminar (Carollo & Filho, 2016). As placas foram lacradas com papel filme e deixadas sobre a bancada do laboratório em temperatura ambiente. As medições foram realizadas em dias alternados (dia sim e dia não) com o auxílio de um paquímetro digital, totalizando 3 medições para cada tratamento. As análises foram feitas com a utilização do software SISVAR 5.6 utilizando o teste Shapiro Wilk a 5%. Os dados obtidos não apresentaram distribuição normal pelo teste de Shapiro Wilk, sendo os mesmos transformados utilizando a fórmula matemática √𝑥 + 1.

 

3. Resultados e Discussão

 

Os resultados apresentados na Tabela 1 demonstram que não houve diferença estatística referente a interação do tratamento com as diferentes diluições utilizadas, assim como também não houve diferença estatística com relação aos diferentes tipos de diluições utilizadas. No entanto, no que se refere ao tipo de tratamento, houve diferença estatística, destacando-se o óleo de neem que apresentou melhor inibição do crescimento micelial que os demais tratamentos; seguido do óleo essencial de cravo-da-índia que também apresentou bons resultados. 

é possível notar que o tratamento utilizando óleo de neem apresenta o menor diâmetro de crescimento micelial (A), seguido do tratamento utilizando o óleo essencial de cravo – da – índia (C). Já no tratamento utilizando extrato aquoso de pimenta malagueta (B) e a testemunha (D) utilizando apenas água destilada, o fungo preencheu todo o diâmetro da placa de Petri. O controle in vitro de C. gloeosporioides com extratos e óleos vegetais tem sido observado em vários trabalhos. Buffon et al. (2010), obtiveram resultados superiores ao deste trabalho ao obterem uma inibição de 100% do crescimento micelial in vitro do fungo Colletotrichum gloeosporioides utilizado o óleo essencial de cravo-da-índia na concentração de 80%. No presente trabalho o óleo essencial de cravo-da-índia não inibiu por completo o 

crescimento micelial do fungo, mas apresentou bons resultados de inibição com a utilização da menor concentração (10-5 ). Os óleos essenciais estão cada vez mais sendo utilizados em estudos para que sejam testados os seus efeitos antifúngicos que buscam o controle de patógenos, como é o caso da antracnose causada pelo fungo C. gloeosporioides. O óleo essencial de menta apresentou excelentes resultados, inibindo completamente o crescimento micelial do fungo in vitro a uma concentração de 100 µL (Andrade & Vieira, 2016). Santos et al. (2018), estudaram o efeito de um revestimento para frutos de mamão com incorporação do óleo essencial de cravo-da-índia, e obtiveram como resultados que os revestimentos com fécula de mandioca associada ao óleo essencial de cravo foram mais significativos para o controle do crescimento da lesão da antracnose. Nota-se então que os óleos essenciais incorporados a outras substâncias mantêm o seu efeito antifúngico, não sendo necessário utilizá-los somente em estado puro ou diluído. Avaliando o efeito antifúngico do óleo de neem na inibição do crescimento micelial do C. gloeosporioides na seringueira, Silva, Pereira & Nakano (2011), obtiveram resultados semelhantes aos observados no presente estudo. O óleo de neem chegou a inibir o crescimento micelial do fungo em cerca de 60%. No presente trabalho observa-se que o tratamento que obteve melhores resultados foi o de óleo de neem, apresentando o menor diâmetro de crescimento micelial. Sousa, Serra & Melo (2012), encontraram resultados que corroboram com esta pesquisa ao estudarem os efeitos de alguns óleos essenciais no controle de C. gloeosporioides in vitro, nas concentrações 0,2; 0,4; 0,6; 0,8 e 1,0%, avaliando a taxa de crescimento micelial e o índice de velocidade de crescimento micelial (IVCM). A partir disso constataram que dos 10 óleos essenciais testados, apenas os óleos de babaçu, semente de uva e amêndoa não apresentaram bons resultados. No entanto os demais óleos (eucalipto, copaíba, andiroba, coco, neem, hortelã e pau rosa) apresentaram excelentes resultados inibindo o crescimento micelial do fungo. Rodrigues et al. (2011), estudando a eficiência do óleo essencial de cravo-da-índia em diferentes concentrações na inibição do crescimento micelial do fungo C. gloeosporioides in vitro, obtiveram resultados superiores aos encontrados neste trabalho. A utilização do óleo essencial de cravo-da-índia na concentração de 0,5% inibiu em 100% o crescimento micelial do fungo, sendo este o melhor resultado obtido no estudo. Com relação ao presente trabalho, o óleo essencial de cravo-da-índia não inibiu em 100% o crescimento micelial do fungo, porém houve inibição do mesmo na menor concentração (10-5 ).

 

Segundo Pierre (2009), o óleo essencial de cravo-da-índia nas concentrações de 0,5%, 0,75% e 1,0% apresenta-se como um produto de alto potencial na redução da Área Abaixo da Curva de Progresso de Severidade (AACPS) da doença mancha manteigosa causada pelo fungo C. gloeosporioides em sementes e mudas de café. Observa-se então, que a utilização do óleo essencial de cravo-da-índia possui alto potencial para ser utilizado na redução de outras doenças, como é o caso da mancha manteigosa, sendo eficiente também nos testes em sementes e mudas. Em alguns estudos realizados por Araújo, Toledo & Soares (2018), foi testado a atividade antifúngica do óleo essencial de cravo-da-índia nas concentrações de 1%, 2%, 4%, 8% e 16%. Obtiveram como resultados que a partir da concentração de 2% do óleo essencial, ocorria a total inibição do crescimento do patógeno Colletotrichum musae isolado de banana. No presente trabalho não houve a inibição total do crescimento do patógeno C. gloeosporioides, no entanto houve uma redução significativa com a utilização da menor dose de óleo essencial de cravo-daíndia. Avaliando a atividade antifúngica in vitro de 13 tipos de óleos essenciais nas concentrações de 0,00%, 0,40%, 0,80%, 1,70%, 3,20%, 6,25%, 12,50%, 25,00%, 50,00% e 100,00%, em uma linhagem padrão de C. gloeosporioides; Ramos, Andreani Junior & Kozusny- Andreani (2016), verificaram que o óleo de neem apresentou atividade antifúngica com uma concentração de, 6,25%. No presente estudo o melhor resultado foi obtido com a utilização do óleo de nem, apresentando resultados de inibição inclusive na menor concentração utilizada (10-5 ). A utilização de outros óleos essenciais em outras espécies também se apresenta eficaz no controle da antracnose. Costa, Oliveira & Santos (2019), avaliaram o efeito do óleo fixo de pinhão bravo no controle in vitro de Colletotrichum musae, causador da antracnose em cultivares de bananeira, nas concentrações de 0,1; 1 e 10%. Com este estudo chegaram à conclusão de que o óleo fixo de pinhão bravo obteve resultados de inibição do crescimento micelial acima de 90%, chegando a 96,26%; já o fungicida (Difenoconazol) testado também neste estudo, apresentou apenas 90,55% de inibição. Pode-se observar que os métodos naturais em alguns estudos apresentam melhores resultados na inibição do crescimento micelial do fungo do que os fungicidas criados sinteticamente e que causam danos ao meio ambiente. Avaliando o crescimento micelial in vitro de Colletotrichum musae e Colletotrichum gloeosporioides fazendo o uso de óleos essenciais de Citrus spp. nas concentrações de 0,05%; 0,25%; 0,5%; 1%, Moura et al. (2017), obtiveram excelentes resultados. O óleo de Limão Siciliano (C. limom) obteve destaque, inibindo o crescimento micelial do fungo em 100% na concentração de 1%. No presente estudo não houve inibição em 100% do crescimento micelial do fungo Colletotrichum gloeosporioides com a utilização de óleo de nem, porém o mesmo apresentou bons resultados de inibição com a utilização da menor dose (10-5 ), sendo interessante realizar mais estudos com concentrações menores para avaliar qual a concentração mínima de óleo de neem que já apresenta resultados de inibição.

 

4. Considerações Finais

 

A utilização do óleo de neem apresentou os melhores resultados, sendo eficiente na inibição do crescimento micelial do fungo desde a menor concentração (10-5 ). O óleo essencial de cravo-da-índia apresentou bons resultados de inibição desde a menor concentração (10-5 ), porém não obteve tanto destaque quanto o óleo de neem. Já a utilização de extrato aquoso de pimenta malagueta não obteve bons resultados, inibindo muito pouco o crescimento micelial do fungo.

 

Fonte: 

Métodos alternativos para o controle in vitro de Colletotrichum gloeosporioides agente causal da antracnose em pimenta dedo-de-moça


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